sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CLIMATÉRIO E A IDENTIDADE FEMININA



Todos os caminhos que levam ao envelhecimento da mulher passam pela menopausa e suas dores. Dores essas que são sentidas de forma diferente por cada mulher, mas que trazem um traço comum – a necessidade da redefinição da sua identidade feminina.
Não, esta não é uma questão nova para a mulher, nem exclusiva do climatério. Em todas as fases em que as mudanças levam a uma alteração corporal, afetiva ou social do papel feminino, a sua identidade entra em cheque e o sofrimento acompanha, em alguma medida, essas transformações. No presente trabalho, nos centraremos nas fases esperadas em que o desenvolvimento hormonal retroalimenta modificações em outras áreas, dando especial atenção ao climatério.

ALVORECER
A menarca é como o alvorecer, quando o céu é tingido de azul e amarelo. A terra está molhada, cheira a umidade e orvalho. As formas , antes imprecisas, se distinguem e tudo pulsa, vibra, anseia, interroga e responde ao nascer e renascer. É a adolescência em toda a sua plenitude, beleza e movimento. O feminino, impulsionado pelos hormônios, tinge de sangue (vida, menstruação) aquele céu e vai acrescentando os tons róseos que irão definir aquela manhã de verão.
As crises da menarca podem alterar a relativa placidez deste quadro, resultando, por exemplo, em infantilização , dependência , timidez ou agressividade, como formas de rejeição ao crescimento. Dores menstruais sem causa orgânica são sinais que revelam a não aceitação das novas nuances do papel feminino neste período.
MEIO DIA
Na fase adulta, a mulher é como o meio dia. O sol a pino torna as formas nítidas definidas, sem sombras. Tudo é claridade, calor, nitidez. Atingiu-se o cume da montanha, divisa-se um grande platô apto a acolher os novos ninhos – a família, o trabalho, os amigos. A mulher parece um sistema pronto a planejar e executar as suas funções com o mínimo possível de desgaste.
Neste período, as crises de identidade são passíveis de modificar todo o panorama. A pessoa pode jamais sentir-se em um platô e sim em um desfiladeiro, com subidas bruscas e descidas vertiginosas. Além da permanência das manifestações adolescentes, podem surgir a TPM, o vaginismo, a dificuldade de engravidar, além de vários quadros de distúrbios psíquicos.

POR DO SOL
O climatério é como o por do sol. O céu exibe nuances de rubro, roxo e negro. Nuvens carregadas no horizonte tentam esconder o sol e ele, em sua beleza máxima, como uma enorme bola de fogo, luta por sobreviver enquanto vai, aos poucos, mergulhando no oceano. Cores e movimento que lembram conflito, tormenta, despedida, ocaso e morte.
Cheira a guerra, desperta sentimentos de drama, de adeus, de cortinas que se fecham.
O dia, que se recusa a ir embora, vai sendo engolido aos poucos pela grande garganta da noite e submerge em sombras. Fecharam-se as cortinas, acabou a peça e todos saem cabisbaixos, com um gosto amargo na boca. Os animais também fugiram para os seus ninhos, com medo dos predadores que estão chegando.
Climatério e crise se confundem. É o feminino que se vai, deixando o vazio em seu lugar. Não sou mais quem fui. Então, quem sou? É cedo para encarar o não-ser, mas a mulher sente-se castrada de tudo que a definiu como fêmea, desde as suas origens. Cessou o sangue, acabou a vida ou transformou-se em seu oposto. Algumas mulheres rejeitam com tal intensidade este novo estado que procuram saída em sucessivas plásticas, a ponto de não mais se reconhecerem no espelho ou parecerem, para os outros, verdadeiras máscaras. Outras se sentem como jovens e buscam sofregamente relações afetivas com pessoas bem mais novas, como se pudessem sugar a juventude do outro e comprovar a si mesmas e ao mundo que não, não envelheceram. E que são, sim, atraentes e desejáveis.
As alterações hormonais da menopausa refletem-se no físico. As mulheres tendem a ganhar mais peso, a ter uma alteração nas formas que as tornam mais "masculinas". A voz torna-se mais grave, os cabelos escasseiam e perdem o brilho, a vagina resseca, os seios caem, o sono se altera para mais ou para menos, acentuando o ar de cansaço nos quais as rugas e as olheiras parecem aumentar a cada dia. Estes fatores são dramáticos em um contexto social que supervaloriza o físico e a juventude. Então a mulher se envergonha de si mesma e pode cultivar sentimentos de baixa-estima e ressentimento ou incrementar esses sentimentos, quando preexistentes.
Os lados inconsciente e fantasmático da mulher menopáusica independem, porém, do novo status da mulher na sociedade. Também não dependem dos desencontros homem-mulher criados por esta nova ordem (ou desordem) social. Poder-se-ia argumentar que a mulher, nesta fase, sente-se só por causa dos conflitos causados por um mundo em mudança, onde dividir e pertencer foram trocados por atitudes paradoxais de isolamento e promiscuidade. Sim, o status da mulher alterou-se e ainda está em plena evolução. Muitos tipos de comportamento são absolutamente novos e as demandas sociais geram pressões que precisam ser atendidas de uma maneira ou de outra. Mas a menopausa reedita crises não superadas, que fazem parte da mulher enquanto pessoa, a despeito do período histórico em que ela esteja inserida. Mudam as formas e as atitudes, mas o conteúdo é semelhante.
O ser humano atualiza, em suas crises, os seus anseios atendidos ou não de apego, suas carências antigas, seus lutos não elaborados. Como as mulheres que conservam traços simbióticos e, por sentirem-se, na menopausa, sós e sem lugar no mundo, desenvolvem uma agorafobia ou síndrome de pânico. A casa na qual se refugiam é a reedição do útero e do colo que a sua solidão, medo e impotência demandam, como uma forma extremada de regressão e dependência.
"Se não sou mais mulher e não posso mais ser mãe, não sou mais nada". É este o sentimento que invade, de forma mais ou menos consciente, a mulher desta etapa, mesmo as que optaram por não serem mães. Este sentimento está na base da "síndrome do ninho vazio" (os filhos cresceram e tomaram os seus rumos), síndrome esta que também pode existir em mulheres que jamais foram mães, ao se defrontarem, no climatério, com a impossibilidade de sê-lo.
Atualmente, muito mais mulheres chegam à menopausa, pelo simples fato de que, antes, morria-se mais cedo. Ao mesmo tempo, as mulheres eram tão "velhas" na menopausa que os desconfortos do climatério eram confundidos com as queixas da velhice. Hoje, como ontem, o agravamento das dores nesta fase devem-se, em grande parte, à dor da perda. E a maior delas, como referimos, é a perda da identidade.
A TRH representa a resposta para muitas demandas inconscientes femininas. Para algumas, é o paraíso – a materialização do sonho da eterna juventude. Para outras, torna-se uma ameaça, rejeitada por razões não claramente explicadas e que dão vazão ao questionamento : a TRH é um remédio ou um veneno? Deixando de lado a parte técnico-científica do problema e pensando nas razões inconscientes que podem levar uma mulher a aceitar – ou recusar – a TRH, ficamos diante de um problema que ultrapassa o efeito químico da medicação : o que representa, para cada mulher, a sobrevida da sexualidade? Por exemplo, para alguém que padece de fortes repressões sexuais, uma vagina ressecada poderá trazer-lhe o mesmo resultado que o vaginismo – uma "porta fechada" para as "obrigações" do sexo e com mais uma vantagem, a de não trazer culpa pela recusa. A culpa é do climatério ou dos riscos da TRH.
Assim, hoje e sempre, mulheres que atingem o climatério, sejam solteiras, casadas ou viúvas (a crise também não respeita estado civil), precisam aprender a aprender a administrar este período ou irão mergulhar na noite, como o sol que se põe. E afogar-se, aceitando a própria destruição como pessoa e como mulher.
O climatério é inevitável para quem chegou a este estágio e também a crise que o acompanha, em maior ou menor grau. Ao mesmo tempo, a crise é uma geradora de energia e toda energia pode construir ou destruir. Ou seja, a crise mostra o caminho da sua própria solução. Repensar o papel feminino é fundamental para que se transponha esse período. Urge criar um novo papel.
A redefinição da identidade implica em uma criação de novas saídas. O sol que se põe pode dar origem a uma nova aurora e não à noite eterna. Nesta aurora, não seremos mais as crianças ou adolescentes que fomos, mas conseguiremos aproveitar a grande dádiva que a ciência, hoje, nos propicia ao dotar a vida humana de níveis cada vez mais altos de longevidade. Isto equivale a viver mais tempo com mais vida, ou com o sentimento gratificante de estar vivo. Equivale a usufruir a sobrevida com sabedoria, auto-respeito e prazer.

Fonte:  Estudos Psicoterápicos Climatério e a Identidade Feminina

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