
Hesíodo em sua Teogonia , pai de um grande número de mitos, foi aparentemente o primeiro a falar de uma "raça das mulheres" - gynaikon-antígenos, caracterizado por um terrível mal, desde o momento da criação de Pandora e também de um tipo diferente da humanidade feita apenas por homens. Para essas concepções nada agradável do universo feminino, outros seguiram: na literatura grega, havia uma conversa de mulheres em termos de ikelon (semelhança) de ídolos (armadilha) e Pema (peste). Trabalhando neste tema encontrei outras referências de Yvone Knibiehler1. Esta autora observou que o Homo sapiens que viveu na Europa no Paleolítico Superior produziu um grande número de estatuetas representando mulheres com seios grandes, barrigas protuberantes e, muitas vezes sem membros e até mesmo a cabeça. Embora até agora não foi capaz de interpretar essas criações, os comentaristas militantes, quiseram ver nelas a origem do culto à Grande Mãe, figura arquetípica, antes de qualquer divindade, o que levou a que as feministas encontram aqui uma prova da preeminência inicial do feminino, e anti-feminista a responder que a mãe é a essência da mulher. Estas perspectivas em certo modo antagônicas me resultaram interessantes por certos pontos de contacto com as distintas concepções de Freud e Lacan sobre o enigma da mulher, como veremos na continuação.
Como você sabe, dentro da psicanálise a mulher ocupa o centro de uma pergunta que fez história e há gerado profundos efeitos sobre o legado de Freud. Nasceu durante uma sessão de análise com Marie Bonaparte com o mestre vienense. Freud le disse: "A grande pergunta que nunca recebe resposta e eu não estou capacitado para responder, depois de meus trinta anos de estudos sobre a alma feminina, é o que deseja uma mulher? ''. Para Freud o enigma da mulher sempre oscilou entre o sagrado, o divino e o irrepresentável. E apesar de jamais ter separado de sua afirmação, sobre a apenada menina de Édipo: "Ela o viu, ela quer isso", referiu-se à psique feminina como algo insondável, como um "continente negro" até chegar formular para o fim de sua vida a sua famosa pergunta "Was will das Weib?".
O que é uma mulher para Freud? Aqui se faz necessário partir de uma proposição psicanalítica básica em torno da diferença sexual. Ao remeter nos à obra de Freud, encontramos que uma parte central de sua doutrina se baseia na afirmação de que a anatomia por si só não determina a identidade sexual, do mesmo modo, que a diferença sexual não pode ser reduzida ao natural. Para Freud o que produz a diferença sexual é o significado atribuído à diferença anatômica dos órgãos masculinos e femininos. Conseqüentemente, de acordo com Freud homens sofrem de "ansiedade de castração" e as mulheres em seu "Penisneid" (inveja do pênis).Freud propõe aqui três métodos ou soluções que se abrem para a menina antes do descobrimento de sua falta fálica: a renuncia, a masculinidade ou a feminidade. É necessário ressaltar que no terceiro caso, designado por Freud como a evolução normal, o sujeito não renuncia o ter fálico como o primeiro. Para colocar de outra forma, Segundo Freud a feminidade das mulheres decorre de seu "ser castrado": é mulher aquela cuja falta fálica a incita a dirigir-se até o amor de um homem. Desta forma, a menina só se torna mulher se ao invés de propor - se - como segundo caso- auto procurar- se um substituto fálico, na espera de homem, aguarda o falo - ou seja, o pênis simbolizado - o que faz, especialmente sob a forma de uma criança. Daí, não é de estranhar que grande parte das pesquisas de Freud colocou ênfase nos suplementos que a mulher pode encontrar, ou inventar, para cobrir este menos fundamental com o que o sujeito se relaciona. Nem é surpreendente que a tese de Freud se afirme categoricamente toda a sua obra, e vá mais longe: não só destina a mulher a ser mãe de seu filho, mas também ser uma mãe para o marido: "O casamento em si não é garantido até que a mulher consiga fazer de seu marido seu filho a agir com ele como uma mãe. "
A princípio, uma pergunta se impõe. Transformar-se em mãe é a solução para a posição feminina? Sem dúvida, responder a questão do desejo sexual da mulher com a progenitora é muito paradoxo. Certamente, o filho, para uma mulher é um precioso 'objeto' , mas pertence à dialética fálica de ter o que não lhe é próprio e só raramente satura o desejo, de ser propriamente feminino. A criança pode relatar uma quota de gozo, e fazer calar a exigência feminina, como se vê nos casos em que a maternidade modifica radicalmente a posição erótica da mãe; pode obstruir em parte a falta fálica na mulher, mas não é a causa do desejo feminino que entra em jogo no corpo a corpo. E as vezes, um homem só pode exercer a função paterna se não o toma como "toda mãe", se não que a divide. Uma mulher dividida e a que não toma o filho como o obturador de sua falta, mas que propicia sua saída exogâmica da vida. Em outras palavras. O desejo feminino, como tal, retorna para a mãe ausente, na medida em que és mulher, uma mãe não está toda para seu filho.Pode-se dizer que quando uma mulher quer um filho não só quer o falo que o pai não lhe deu, o amor de uma mãe não é redutível ao desejo de um falo, mas a menos que haja algo de que funda o amor; é uma declaração de ser que se queira ser, como dizia Heidegger; é uma afirmação da vida.
Mas, a época conhece outros meios. Hoje a saída através de maternidade tal como a concebia Freud tem sido questionada com toda legitimidade. Em outras palavras, a restituição fálica não encontra necessariamente na maternidade uma saída. Não é raro em nossos tempos a mulher responda a questões sexuais causando uma divisão da sua vida amorosa, o que as aproxima da degradação da vida amorosa que Freud diagnosticou como condição exclusiva nos homens, ou seja, aquela bipartição entre o amor e o prazer que parece ter empurrado algum tipo de infidelidade estrutural, o que constitui então o problema masculino nos términos de: como poderia conviver um homem com uma só mulher, como escolher a uma e colocá-lo no lugar da causa de seu desejo. Neste ponto, do desdobramento entre o objeto de amor e o objeto do desejo, se faz necessário destacar que a evolução dos costumes contemporâneos faz aparecer novos fenômenos. Soler corretamente observa que, uma vez liberadas da única escolha de casamento, muitas mulheres amam por um lado, e deseja ou desfrutam pelo outro. Obviamente, ao escapar da instituição de um laço exclusivo e definitivo, os vários parceiros de uma mulher está de um lado ou de outro: do lado do corpo que satisfaz o gozo sexual, ou o lado do amor, e a convergência sobre o mesmo objeto se realiza com uma configuração entre outras.
Pelo exposto anteriormente, a mulher freudiana é definida exclusivamente pelos caminhos de sua aliança com o homem, no entanto Freud concebe uma só variante do desejo então, a de tê - la - baixa a forma de ter o amor de um homem ou um menino. Nestas considerações os pontos de partida de Freud e Lacan diferem. Ao traçar os contornos de uma teoria não imaginaria, não naturalizada da diferença sexual, Lacan consegue esclarecer a tese freudiana. Tanto é assim que quando aborda a temática de Édipo, a faz já não de uma perspectiva mitológica, mas a partir de sua teoria do significante, a que ao articular o complexo de castração inconsciente com sua evolução sobre a metáfora paterna, ficam reguladas as três orientações freudiana por uma mesma razão, pela razão do falo, um significante como tal, tem um lugar no discurso do Outro, sempre transindividual. O falo, significante da falta, presta-se a representar, também da diferença sexual, a falta em ser que a linguagem gera para cada sujeito.Para Lacan a diferença, não é apenas sexual anatômico, mas que refere-se dos diferentes posicionamentos sobre o amor, o desejo e o gozo, seja dos que se dizem homens como das que se dizem mulheres.
Como você sabe, dentro da psicanálise a mulher ocupa o centro de uma pergunta que fez história e há gerado profundos efeitos sobre o legado de Freud. Nasceu durante uma sessão de análise com Marie Bonaparte com o mestre vienense. Freud le disse: "A grande pergunta que nunca recebe resposta e eu não estou capacitado para responder, depois de meus trinta anos de estudos sobre a alma feminina, é o que deseja uma mulher? ''. Para Freud o enigma da mulher sempre oscilou entre o sagrado, o divino e o irrepresentável. E apesar de jamais ter separado de sua afirmação, sobre a apenada menina de Édipo: "Ela o viu, ela quer isso", referiu-se à psique feminina como algo insondável, como um "continente negro" até chegar formular para o fim de sua vida a sua famosa pergunta "Was will das Weib?".
O que é uma mulher para Freud? Aqui se faz necessário partir de uma proposição psicanalítica básica em torno da diferença sexual. Ao remeter nos à obra de Freud, encontramos que uma parte central de sua doutrina se baseia na afirmação de que a anatomia por si só não determina a identidade sexual, do mesmo modo, que a diferença sexual não pode ser reduzida ao natural. Para Freud o que produz a diferença sexual é o significado atribuído à diferença anatômica dos órgãos masculinos e femininos. Conseqüentemente, de acordo com Freud homens sofrem de "ansiedade de castração" e as mulheres em seu "Penisneid" (inveja do pênis).Freud propõe aqui três métodos ou soluções que se abrem para a menina antes do descobrimento de sua falta fálica: a renuncia, a masculinidade ou a feminidade. É necessário ressaltar que no terceiro caso, designado por Freud como a evolução normal, o sujeito não renuncia o ter fálico como o primeiro. Para colocar de outra forma, Segundo Freud a feminidade das mulheres decorre de seu "ser castrado": é mulher aquela cuja falta fálica a incita a dirigir-se até o amor de um homem. Desta forma, a menina só se torna mulher se ao invés de propor - se - como segundo caso- auto procurar- se um substituto fálico, na espera de homem, aguarda o falo - ou seja, o pênis simbolizado - o que faz, especialmente sob a forma de uma criança. Daí, não é de estranhar que grande parte das pesquisas de Freud colocou ênfase nos suplementos que a mulher pode encontrar, ou inventar, para cobrir este menos fundamental com o que o sujeito se relaciona. Nem é surpreendente que a tese de Freud se afirme categoricamente toda a sua obra, e vá mais longe: não só destina a mulher a ser mãe de seu filho, mas também ser uma mãe para o marido: "O casamento em si não é garantido até que a mulher consiga fazer de seu marido seu filho a agir com ele como uma mãe. "
A princípio, uma pergunta se impõe. Transformar-se em mãe é a solução para a posição feminina? Sem dúvida, responder a questão do desejo sexual da mulher com a progenitora é muito paradoxo. Certamente, o filho, para uma mulher é um precioso 'objeto' , mas pertence à dialética fálica de ter o que não lhe é próprio e só raramente satura o desejo, de ser propriamente feminino. A criança pode relatar uma quota de gozo, e fazer calar a exigência feminina, como se vê nos casos em que a maternidade modifica radicalmente a posição erótica da mãe; pode obstruir em parte a falta fálica na mulher, mas não é a causa do desejo feminino que entra em jogo no corpo a corpo. E as vezes, um homem só pode exercer a função paterna se não o toma como "toda mãe", se não que a divide. Uma mulher dividida e a que não toma o filho como o obturador de sua falta, mas que propicia sua saída exogâmica da vida. Em outras palavras. O desejo feminino, como tal, retorna para a mãe ausente, na medida em que és mulher, uma mãe não está toda para seu filho.Pode-se dizer que quando uma mulher quer um filho não só quer o falo que o pai não lhe deu, o amor de uma mãe não é redutível ao desejo de um falo, mas a menos que haja algo de que funda o amor; é uma declaração de ser que se queira ser, como dizia Heidegger; é uma afirmação da vida.
Mas, a época conhece outros meios. Hoje a saída através de maternidade tal como a concebia Freud tem sido questionada com toda legitimidade. Em outras palavras, a restituição fálica não encontra necessariamente na maternidade uma saída. Não é raro em nossos tempos a mulher responda a questões sexuais causando uma divisão da sua vida amorosa, o que as aproxima da degradação da vida amorosa que Freud diagnosticou como condição exclusiva nos homens, ou seja, aquela bipartição entre o amor e o prazer que parece ter empurrado algum tipo de infidelidade estrutural, o que constitui então o problema masculino nos términos de: como poderia conviver um homem com uma só mulher, como escolher a uma e colocá-lo no lugar da causa de seu desejo. Neste ponto, do desdobramento entre o objeto de amor e o objeto do desejo, se faz necessário destacar que a evolução dos costumes contemporâneos faz aparecer novos fenômenos. Soler corretamente observa que, uma vez liberadas da única escolha de casamento, muitas mulheres amam por um lado, e deseja ou desfrutam pelo outro. Obviamente, ao escapar da instituição de um laço exclusivo e definitivo, os vários parceiros de uma mulher está de um lado ou de outro: do lado do corpo que satisfaz o gozo sexual, ou o lado do amor, e a convergência sobre o mesmo objeto se realiza com uma configuração entre outras.
Pelo exposto anteriormente, a mulher freudiana é definida exclusivamente pelos caminhos de sua aliança com o homem, no entanto Freud concebe uma só variante do desejo então, a de tê - la - baixa a forma de ter o amor de um homem ou um menino. Nestas considerações os pontos de partida de Freud e Lacan diferem. Ao traçar os contornos de uma teoria não imaginaria, não naturalizada da diferença sexual, Lacan consegue esclarecer a tese freudiana. Tanto é assim que quando aborda a temática de Édipo, a faz já não de uma perspectiva mitológica, mas a partir de sua teoria do significante, a que ao articular o complexo de castração inconsciente com sua evolução sobre a metáfora paterna, ficam reguladas as três orientações freudiana por uma mesma razão, pela razão do falo, um significante como tal, tem um lugar no discurso do Outro, sempre transindividual. O falo, significante da falta, presta-se a representar, também da diferença sexual, a falta em ser que a linguagem gera para cada sujeito.Para Lacan a diferença, não é apenas sexual anatômico, mas que refere-se dos diferentes posicionamentos sobre o amor, o desejo e o gozo, seja dos que se dizem homens como das que se dizem mulheres.
As relações entre os sexos giraram assim "ao arredor de um ser e de um ter, o falo."ser o falo" - expressão desconhecida no pensamento freudiano - é o que designa a mulher no entanto que na relação sexualizada, ela é chamada ao lugar do objeto. Nas palavras de Lacan: "Um não é o que tem, em outras palavras, no entanto o homem tem o órgão fálico não o es, implica que do outro lado um es o que não tem, é dizer, que é precisamente em ambos não tem falo que a mulher pode ter esse valor. Isso significa que ela não é objeto mas que a condição de encarnar para o parceiro a significação da castração e de apresentar sob o sinal de menos, é por isso que Lacan lhe dá especial importância para o texto de Leon Bloy "A mulher pobre." Disto se desprende também que a mesma expressão lacaniana de ser o falo implica certo desprezo enquanto ao ter outro macho. Implica certo sacrifício das propriedades,da ambição de ter. Seguindo a Soler "tudo o que pertence ao desejo de adquirir, de apropriar-se, vale pra o homem no entanto metonímia de seu ter fálico. O desejo estaria liminar para as mulheres, trata-se da riqueza, do poder,da influência, do sucesso, enfim, de todas as buscas chamadas fálicas da vida cotidiana.
Em seu discurso de "Televisão" Lacan afirma algo mais contundente: "não há limites para as concessões que cada um faz para um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens" e ilustra em extremo com o sacrifício realizado por Medéia que matou seus próprios filhos para vingar-se de Jason, seu amante, que tinha se separado dela. A trama de Medea, sem dúvida, representa um abismo de horror e angústia colocando-nos na presença de uma mãe que comete uma ação filicídio quando a cultura exalta o amor maternal. Supõe-se que a mãe deve estar disposta a suportar qualquer coisa por seus filhos. Nega e destrói sua própria natureza. Avaliação legítima, certamente, se consideramos quanto sacrifício e tempo de sua vida, quanto dom do seu desejo deve operar para que seu filho pode criar-se. Mas Lacan demonstra com o ato de Medea (dividida entre a mãe ou a mulher) sua escolha de a mulher - enfrentando o vazio, a loucura da falta - um desprezo da mãe - a que previlegiaria em ter seus filhos como bem mais precioso. destacamos aqui uma citação de Medea: "Vou matá-los com a minha mão porque lhes tenho dado o ser." O que podemos aprender nesta frase? Novamente, nos encontramos com que no amor de uma mãe não pode reconhecer a extensão da falta que a leva a ter uma criança. A mulher, como Lacan ensinou, não se escreve na ordem fálica. Para Lacan, o ato de Medea é o sacrifício de que não tem mais precioso para abrir no homem um buraco que não se pode preencher. Mas o que significa esta divisão das mulheres? Por um lado, sua relação estrutural com o buraco mesmo do sexo, com a falta de identidade sexuada, o que sinaliza sua proximidade com o vácuo. Neste sentido, pode-se dizer que - a diferença dos homens - as mulheres possuem uma relação muito mais direta com o Real. É a partir desta relação mais essencial, mais próxima das mulheres com o nada, que se abrem as portas do que denomina-se em termos de Miller - uma "clínica feminina"
Apesar de um registro, talvez mais parecido com a teoria freudiana do ter fálico, se poderiam evocar vários fatos clínicos precisos ao nível do dizer das mulheres. (Como o fantasma da injustiça fundamental que pode advertir -se tanto na denúncia feminina, especialmente aquela grande queixa da filha frente a sua mãe, a quem a critica por não ter transmitido nenhum saber - fazer são a feminilidade, ou bem os protestos tão frequentes contra a sujeição ao Outro, seu sonho de autonomia, que es então, só a contrapartida ego de alienação que resultante da sua aplicação),existem no entanto, outros registros clínicos muito atual que demonstram de maneira mais enfática o lado de ser, portanto, não consistem em preencher a falta mas detecta-la melhor, podemos colocar aqui certos testemunhos de uma dor psíquica ligada a uma afeto de não ser, de ser nada, com momentos de ausência de si mesmo, que promove toda uma clinica da falta de identidade, a que nas mulheres uma intensidade em nada comparável com com o que pode ser encontrado nos homens, já a que se lhe acrescenta uma falta de coerência, observável através das alegações de um sentido de fragmentação corporal, que muitas vezes é acompanhado com muita falta de controle, esse efeito segundo o qual se sente que se escapa o domínio do corpo. Em uma linha similar de considerações se escrevem o carácter irracional concedido as mulheres, seu modo de entrega original, sua especial sensibilidade, a entrega irrestrita de uma mulher para um homem, sua coragem ilimitada e uma relação particular com o respeito a que com Freud conhecemos como sublimação que as distingue do universo masculino
Em Um e o universo Ernesto Sabato disse: "Haverá sempre um homem que, ainda que sua casa caia, estará preocupado com o Universo. Haverá sempre uma mulher que, ainda que o universo entre em colapso, estará preocupada com sua casa." De acordo com esta afirmação, Freud tampouco duvidou em caracterizar as mulheres como posicionando-se,- comparativamente aos homens,- com certa distância ou desafeição em torno das criações das civilizações. À primeira vista, esta afirmação parecia estranhar certas conotações depreciativas, no entanto, ao avançar na leitura do texto freudiano, notamos que a suposta desqualificação não só cai dissipada mas também que tomam outra sentido. Nas palavras de Miller:
"Os grandes interesses da humanidade, a que Freud subscrevia em certos aspectos e cujo desconforto crescente para o sujeito denunciava, encontram suas raízes em uma fuga, uma defesa em relação a essa forma inicial de amor. Pois, como declarou, no final resulta muito chata essa dependência com respeito a um objeto de amor,a um objeto sexual, a um objeto erótico particular - com relação a isso.
É por isso que os homens, especialmente o macho, se lança à filantropia: é mais fácil amar a todo o mundo, que amar a uma só. É o que sabemos dos estragos produzidos em uma família pela filantropia paterna, seja religiosa, sindical, médica,-não lhe escapa a vara que tudo e todos têm precedência a mulher que está ao seu lado. Freud diz gentilmente que depois todo o amor universal é uma injustiça para com o objeto erótico, e que nem todos os homens, e não toda a humanidade merece o amor.
O homem - como aponta Zizek - subordina sua relação com uma mulher no campo dos objetivos éticos (forçado a escolher entre uma mulher e um dever ético - na forma de obrigações profissionais, etc - Imediatamente opta pelo dever), sem embaraço , é ao mesmo tempo consciente de que só uma relação com uma mulher pode proporcionar-le a felicidade. Sua "aposta" é que a mulher será seduzida mais eficazmente precisamente quando ele não subordinar toda sua atividade a ela; o que ela seria incapaz de resistir é a fascinação pela atividade "pública" dele, ou seja, sua consciência secreta de que ele está fazendo na realidade por ela. Se trataria aqui da economia libidinal invertida do amor cortês. No amor cortês, o homem se consagra diretamente para a dama, levanta o seu serviço a ela como seu dever supremo, e por esta razão a mulher é fria, indiferente, caprichosa, em termos de Lacan: uma "companheira desumana" com a qual uma relação sexual não é possível nem desejável. Este paradoxo surge em quase todos os melodramas que interprete a disposição do homem de sacrificar a sua amada pela causa pública, como prova de seu amor por ela, ou seja, que ela é tudo para ele. O momento sublime de reconhecimento se produz quando a mulher finalmente percebe que o homem a tem deixado em nome de seu amor por ela.
No entanto, ao retomar as considerações freudianas em torno de sublimação e do universo feminino, podemos colocar outras nuances que nossa época se encarrega de mostrar. É por todos conhecido o feito de que as mulheres trabalham hoje ao lado dos homens. A posse legítima por parte das mulheres dos setores ligados tradicionalmente com a esfera pública - pertencente por tradição ao exercício dos homens - há introduzido consideráveis nuances na briga entre os sexos. Estas nuances contemporâneas podem serem vistas especialmente na nova posição social que tem acessado as mulheres a partir de sua inserção no mercado de trabalho, e mais especificamente no mercado de executivos profissionais. Este acontecimento pode levar aos abundantes dados clínicos como os expõem simpaticamente Sinatra - "a que a mera monstração a um homem das chaves do apartamento ou de um carro que elas possuem, podem intimidar lo. Brandindo estas chaves toma o valor de uma ameaça para a posição deste "pequeno homem" chaves que por sua vez tornam-se um novo símbolo de sua condição de "novas proprietárias" (transformado agora em emblema feminino).
Essas mudanças, típicas da época, que tem suas repercussões sobre as condutas e ideais sexuais colocam novos problemas dentro da prática psicanalítica. A sexualidade humana nunca foi tão livre. A ciência nunca avançou tanto na exploração do corpo e do cérebro. E, no entanto, nunca foi tão agudo o sofrimento psíquico, solidão, ingestão de medicamentos psicotrópicos, tédio, fadiga, medicação a cada minuto da vida. Os episódios de despersonalização ou de fragmentação corporal fazem vacilar o analista frente a um diagnóstico diferencial entre neuroses e psicoses. As dietas e a obesidade mostram com especial intensidade que o corpo feminino é, hoje, o palco privilegiado da luta de uma mulher contra si mesmo. Outras mudanças que ocorrem na atualidade tem a ver com um problema comumente atribuída aos homens, como é o caso de inibição. Há inibição apenas quando há escolha possível, até mesmo imperativo. Onde o desejo não é solicitado, onde só há impedimento, a predestinação da realização ou da decisão não se pode ser manifestar. A emancipação, que multiplica as possibilidades, que permite a mulher determinar-se em função de seus desejos, escolher ter um filho ou não, casar-se ou não, quando querem, também trabalhar ou não, faz vir a tona o fato de que o drama de inibição não é uma especialidade masculina. Mais ainda, porque por efeito do discurso, todo o que não é proibido se torna obrigatório. Então, vemos nas mulheres o mesmo distanciamento frente o ato que no homem obsessivo, as mesmas dúvidas sobre as decisões fundamentais, frente dos compromissos definitivos, e particularmente no campo do amor. O homem - no singular - e a criança, os dois desejados, mas adiado até que um melhor encontro, pertencem à clínica diária de hoje e são muitas vezes a origem de uma demanda de análise. Assim, em termos de Soler: "A extensão do universo ao conjunto das condutas sociais é acompanhada por uma homogeneização de grande parte dos sintomas." Ainda assim, convém notar que para o analista não se trata de anatematizar nem de sugerir ao paciente aderir ao todo fálico em suas várias formas (maternidade, conjuge, etc) .. O que se trata é de não ignorar a recomendação lacaniana de não perder a bússola que nos orienta para o real, de ter presente o horizonte o tempo. Não devemos lamentar as evoluções da nossa civilização. O psicanalista se abstém de criticar, só pode constatar no discurso que o determina. No momento não sabemos quais as conseqüências acarretarás as mudanças de estado da mulher contemporânea.
E quanto à questão que convocou no início deste artigo: O que quer uma mulher? Desde Lacan poderia ser respondida da seguinte forma: Um desejo muito estranho a toda pesquisa de ter. É definida como o equivalente, se não uma vontade, pelo menos um objeto de gozo. Para Lacan se trata de dar um lugar para a originalidade da posição das mulheres e ao gozo feminino vinculados a ela. Destacando que o gozo feminino se trata de um gozo específico, exceção do caráter "discreto" e limitado o gozo fálico próprio do homem. Porque, como assegura, em questão de prazer o que se sente do lado mulher ultrapassa longe, o que os homens podem sentir. Que é um prazer muito maior tem uma lógica muito simples, não é o mesmo prazer de um órgão que desfruta de todo o corpo. O tematiza em RSI e Encore como o gozo suplementário: um prazer que vai além do gozo do órgão, exclui-se as palavras. Um prazer próprio que nada é dito e do que as mulheres não explicam absolutamente nada; e que cada uma terá uma marca diferencial de acordo com sua história singular. Lacan utiliza a alegoria de Tirésias, quem depois de ter passado pelo seu lado o homem e por seu lado mulher, visitada por Zeus, diz, "onde um homem goza

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